The Cigarettes DATABASE

Última atualização em 26 de novembro de 2017.

zine papelote cigarettes

Fala-se por aí numa safra de bandas que entrou para a história pelo pioneirismo em produzir rock alternativo no Brasil. Alguns sobreviventes dessa geração até hoje se autocelebram por terem quebrado uma patente no começo dos anos 90 e adotam o discurso de que quando eu cheguei, isso aqui era tudo mato. Embora seja um pouco mais jovem, Marcelo Colares até poderia jogar nesse time, mas não precisa, pois o legado do Cigarettes está vinculado a canções como Impossible Crush, Crystaline, Happiness, The Bore, Sweet Little Darling, The Beauty Of The Day e muitas outras que nunca deixarão de fazer sentido.

Sempre à margem de qualquer cena, indiferente até mesmo às tendências do chamado indie brasileiro, Marcelo Colares chega ao sétimo álbum de uma carreira subestimada e pouco convencional, marcada por breves silêncios e pela famigerada independência. Poucos artistas de sua geração têm uma discografia assim extensa e diversificada. E, certamente, nenhum outro é tão lembrado quanto ele em função apenas de seus primeiros passos – particularmente, a demo Felícia, de 1994, e o debute Bingo, de 1997, um disco pouco celebrado na época e que aos poucos foi adquirindo o status de clássico até se tornar objeto de disputa entre colecionadores.

Seu último registro é Saturno Wins, lançado pela Pug Records no dia 10 novembro de 2017 (escute no player abaixo). O nome do álbum é inspirado em Sob o Signo de Saturno, ensaio onde Susan Sontag apresenta um retrato superficial do filósofo alemão Walter Benjamin: “Considerava-se um indivíduo melancólico, desdenhando os modernos rótulos psicológicos, e invocava a astrologia tradicional: ‘Nasci sob o signo de Saturno, o astro de revolução mais lenta, o planeta dos desvios e das dilações…’.”

“Inerte diante do desastre quase concreto, o temperamento melancólico é galvanizado pelas paixões suscitadas por objetos privilegiados” e muitos outros insights do texto de Sontag se encaixam de forma fluida na figura de Marcelo Colares, personagem à frente dos Cigarettes e que há mais de 20 anos mistura música, desencanto e ainda alguma alegria. Outra boa definição para a trajetória da banda veio num post recente do jornalista Alexis Peixoto, do site O Inimigo: “uma saga que já dura mais de duas décadas de independência, resistência e entrega.”

Esta página reúne uma biografia e uma playlist que são atualizadas a cada novo lançamento do Cigarettes. Pra receber gratuitamente a versão impressa em chamequinho, envie uma mensagem para instagram.com/papelote.press.


Biografia

O Cigarettes é um dos principais representantes da segunda geração de guitar bands brasileiras. No começo dos anos 90, Marcelo Colares saiu de Itaperuna para cursar faculdade no Rio de Janeiro, onde viu a ascensão do Second Come e PELVs como um recado de que era possível fazer o som que estivesse afim, com letras em inglês e influências gringas. No verão de 1994, Colares aproveitou as férias no Noroeste Fluminense para gravar a fita demo Foolish Things and Blah Blah Blah, que foi parar nas mãos de Rodrigo Lariú, do midsummer madness, e dos integrantes da PELVs Dodô Azevedo e Gustavo Seabra, que ajudariam na próxima gravação ainda naquele ano. Enfurnados no quarto de um apartamento, Marcelo, Dodô e Gustavo usaram um portastudio alugado para gravar Felícia numa tarde de sábado e mixá-la no domingo. A fita foi o segundo lançamento do midsummer, que despachou mais de 300 cópias via correio, emplacando Lips 2 como um hit do underground. Em 96, veio “mais uma demo via midsummer madness”, conforme constava na lateral do encarte de Brazil’s Sad Samba, cuja gravação contou com a ajuda de Wilson e Tito, que integravam o power trio na época. Então, falar em carreira solo ou one-man-band talvez seja inapropriado, ficando estipulado que o Cigarettes é Marcelo Colares e quem mais estiver afim.

Lançado em 1997, Bingo foi a primeira prensagem em CD do midsummer e uma das primeiras gravações do Freezer – estúdio em Botafogo comandado por Gustavo e Dodô. A aguardada estreia do Cigarettes tem os Smiths como principal referência, porém Colares refuta o rótulo indie pop, por considerar que há sujeira demais para tal. De fato, o disco é permeado por passagens noise, ora sob a forma de riffs que remetem aos rompantes de J Mascis, ora em tímidas camadas de feedback que descendem de Psychocandy. Complementam a estética do disco outros dois elementos em desuso: a tecladeira pop de This is The Day, do The The, e a levada de What Goes On, do Velvet Underground. relativamente distante do shoegaze e do grunge, Bingo é um dos registros menos datados desse período do rock alternativo brasileiro graças a Gustavo Seabra, que, encarregado de coproduzir e mixar o disco, direcionou-o para um caminho mais pop, tentando deixar os vocais em primeiro plano. Devido a divergências estéticas, Seabra participou de metade do projeto, que também contou com a colaboração de Dodô, Sol Moras e Fabio Leopoldino. Mas tudo isso é nota de rodapé. O que importa é o tracklist repleto de hits – praticamente um best of da banda até então. Pela capacidade de canalizar os aspectos essenciais de suas influências em canções simples e cativantes, seria justo que o Cigarettes fosse reconhecido como o Ramones do indie rock. Bingo ainda reverbera não por nostalgia dos que vivenciaram aquela cena, e sim porque todos que ouviram as confissões de Colares não se esqueceram de suas melodias.

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Biografia em construção. De 1998 a 2015, rolou muita coisa: turnê europeia cancelada em cima da hora, três discos pela SLAG!, show de abertura para o Teenage Fanclub, retorno para o midsumer madness, prensagem de The Cigarettes (2012) em vinil, formação de cinco integrantes durante a turnê de The Waste Land (2015).  Essa parte da história será contada em futuras atualizações da página.

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Em novembro de 2015, após tocar no Nordeste, Marcelo Colares passou por São Paulo para gravar um disco sob os cuidados de Bruna Buzollo; no entanto, por falta de tempo, o encontro rendeu apenas três faixas. Pela primeira vez, as batidas eletrônicas foram utilizadas num contexto pop, e não mais em viagens predominantemente instrumentais. No início de 2016, o midsummer madness lançou os singles virtuais Impossible Crush e ‘blusky’, enquanto Never Know Why ficou na geladeira à espera da coletânea do documentário Guitar Days.

Em julho de 2016, o Cigarettes fez quatro shows no Triângulo Mineiro ao lado dos amigos do Lava Divers. Foi uma mini-tour estratégica para Marcelo Colares retomar a parceria com Bruna Buzollo, que agora reside em Uberaba e é uma das sócias do Laboratório 96, mistura de estúdio, bar e casa de shows onde foi gravado o sétimo álbum do Cigarettes, intitulado Saturno Wins. A mixagem ficou a cargo de Eduardo Ramos e a masterização foi feita nos Estados Unidos por Alan Douches, que já trabalhou com Fleetwood Mac, Olivia Tremor Control, Sufjan Stevens, Beach House, entre outros.

Em setembro de 2017, a Pug Recs lançou o EP The Lights, cuja faixa-título funcionava como uma prévia do disco que seria lançado em seguida. O tracklist conta também com as três faixas produzidas pela Bruna em 2015 e com a recém-lançada Just About Everything Before (gravação de 2008 que veio à tona recentemente numa coletânea do TBTCI Records), além de uma versão alternativa para The Lights. Condensando diferentes influências em uma mesma vibe, o EP traz incursões acústicas, baterias primitivas, beats eletrônicos, solos intermináveis, timbres estourados e atmosferas glaciais que remetem a nomes como Neil Young, Beat Happening, Radio Dept., J Mascis, Neutral Milk Hotel e Slowdive, necessariamente nesta ordem.

Em comemoração às duas décadas de Bingo, lançado em 1997, iniciou-se a empreitada de subir a discografia do Cigarettes nas plataformas digitais. As versões remasterizadas de Song Machine (1999) e All is Well (2005) chegaram ao Spotify em outubro, o que levou Eduardo Ramos, criador do selo SLAG!, a escrever um pequeno texto sobre suas parcerias com Colares. Em 03 de novembro, Bingo (1997) finalmente chegou às plataformas, e dessa vez foi o próprio Colares que escreveu alguns parágrafos relembrando histórias e personagens relacionados à gravação disco. As demos Felícia, Brazil´s Sad Samba e Ashtray são as próximas na lista de relançamentos.

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Após cruzar a faixa etária dos quarenta, Marcelo Colares lança Saturno Wins, onde arrisca-se em temas e formatos pouco explorados ao longo de sua trajetória. Certamente, esse é o disco em que Colares está mais exposto. As guitarras barulhentas, espécie de marca da banda, e sempre um refúgio para eventuais deficiências vocais, estão fora de cena. Dominado pelo arquétipo voz e violão, Saturno acaba por alçar a interpretação ao primeiro plano. Nesse movimento, as fragilidades ganham evidência, com o efeito paradoxal de transformá-las em potência.

O disco percorre lentamente possibilidades, tentativas e limitações. Para os afeitos à astrologia, as correlações com aspectos associados ao astro do título estão por toda parte. A pegada folk-reflexiva aliada a alguns arroubos de saturação sugerem a desaceleração como única saída, ainda que sem destino certo. Nessa era onde prevalecem o cinismo e o déficit de atenção, é provável que Saturno Wins não encontre muitos ouvidos receptivos: trata-se de um disco para se ouvir com calma e sem pressa. Coisas que parecem pertencer cada vez mais a um outro tempo, que não sabemos se já acabou ou se ainda vai começar.

Saiba mais sobre o disco em www.pugrecords.bandcamp.com


Playlist

Por enquanto, apenas o soundcloud tem uma playlist que reúne faixas de todos os lançamentos do Cigarettes, abrangendo discos, demos e EPs. Aos poucos, a discografia está sendo disponibilizada no Spotify. Siga a playlist abaixo para acompanhar as atualizações!


Hiperlinks

Fã Clube: confira uma página do site facebook dedicada exclusivamente ao Cigarettes.
midsummer madness: download gratuito dos discos via midsummer e LETRA DE TODAS AS MÚSICAS!
Bandcamp: download gratuito dos discos lançados pela extinta SLAG!.

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Texto e playlist por Eduardo Bento. Todos os direitos reservados. Qualquer reprodução deve mencionar o DATABASE como fonte. Esta não é uma página oficial do artista, de modo que o autor é o único responsável pelo conteúdo. Primeira postagem: 28 abril de 2016.