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Oruã DATABASE

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Introdução

“Filho do Centro do Rio de Janeiro, nasceu à noite e frequenta os bailes pela madrugada. Free jazz de pobre. Kraut de vagabundo. Sem neurose.” Faz barulho na Baixada Fluminense, Europa e Estados Unidos, não viaja a turismo e nunca fez intercâmbio. Devido a questões estruturais que há séculos oprimem negros e proletários, o ORUÃ está sempre trilhando estradas íngremes, onde as adversidades, mais do que tema para suas músicas, constituem a força motriz de uma viagem para fora da curva.

Mais um projeto do prolífico Lê Almeida, fundador da Transfusão Noise Records e the Brazilian answer to Robert Pollard, de acordo com uma reportagem superficial do The Guardian. Karin, Leandro, João e Bigu estão com sangue nos olhos, mas mantêm a serenidade de quem nunca precisou de dinheiro para dar vazão à sua arte.

O conjunto fez os primeiros ensaios em 2016, ano do golpe que desencadeou uma deterioração democrática arquitetada para inviabilizar sonhos como os que pairavam no Escritório, quartel general da Transfusão na região central do Rio. Assumindo um tom mais político ao longo da discografia, eles seguem lapidando a sonoridade – cada vez mais singular e refinada, sem perder sua carga de ancestralidade ou soar pasteurizada. Dependendo do ponto de vista, o resultado é sempre bruto, impetuoso – uma catarse sônica multifacetada para nos lembrar que os diamantes nascem da lama.

Cru e sofisticado, de tonalidade ocre, o som do Oruã não se encaixa na paleta de cores artificiais de uma onda neopsicodélica cada vez mais dependente de investimentos em pedais e efeitos. Com afrobeat, Clube da Esquina, alguns clássicos da Matador Records, riffs setentistas, amuletos, consciência de classe, space cookies e um gravador de fita cassete na bagagem, o conjunto embarcou numa viagem sem volta.

Em 2018, alternaram entre importantes palcos de capitais e improváveis cidades do interior numa turnê viabilizada por um carro emprestado que percorreu todas as regiões do Brasil e chegou até o Uruguai. Escalado para abrir os shows do Built to Spill, que na época tinha integrantes do Oruã em sua formação, o conjunto se apresentou em mais de 15 países ao longo de 2019 e, imediatamente após a primeira performance nos Estado Unidos, foi convidado para gravar uma session na rádio KEXP. Em agosto de 2022, o quarteto inicia outra turnê internacional.

Empenhado em atingir um público alheio a modismos e comprometido afetivamente com a experiência de ouvir um full album, o Oruã tem se esquivado de rótulos. Em visita às lojas para distribuir seus vinis pelo mundo, inevitavelmente vem a pergunta sobre qual é o tipo de som. Sem tempo para papos teóricos que nunca conseguem explicara mágica daquelas gravações, a resposta é sempre a mesma: música experimental brasileira.

Recomendado para fãs de: CAN, Madlib, Black Sabbath, BadBadNotGood, Milton Nascimento, Thee Oh Sees, Fela Kuti, Stereolab, JB de Carvalho, The Doors, Led Zeppelin, Ty Segall, Sun Ra, Pavement, Sonic Youth Recordings, Tortoise, Boogarins, Duster e Yo La Tengo.


2016-2019

O conjunto Oruã emergiu no final de 2016 durante sessões de improviso no Escritório. Reunindo mais de dez colaboradores, o projeto estreou em 2017 com o LP duplo SEM BENÇÃO / SEM CRENÇA, uma fritação repleta de recortes sonoros e mensagens cifradas. A maioria das resenhas se limitou a apontar as influências de jazz, krautrock e afrobeat que coincidentemente também constavam no press release. É aí que entra em campo a humildade do database.fm para frisar o óbvio: sem comprometer a vocação avant-garde, o repertório é repleto de portas de entrada para um público mais amplo, como tiozões fãs de rock setentista e jovens que interagem com a tag #psicodelia. Conduzida por teclados, Escola das Ruas é uma abertura estrategicamente acolhedora. Entre as passagens mais herméticas, Anátema é o fio da meada que liga Tortoise a Milton Nascimento.

O formato power trio foi adotado para viabilizar as turnês de 2018. Entre uma viagem e outra, gravaram um cover do CAN, um split com a goldenloki e outro com o marianaa em homenagem ao Charlie Brown Jr. O frutífero ano de 2019 começou com a participação de Laura Lavieri numa releitura de Vou Recomeçar, clássico consagrado na voz de Gal Costa. Em abril, o embate entre dois saxofonistas conferiu ao EP Tudo Posso um clima free jazz garageiro e resgatou o caráter colaborativo de outrora. A capa, silkada manualmente na versão em vinil, mostra algo óbvio para quem já teve a sorte de assisti-los ao vivo: David Beat, Joab, Raoni e toda a crew representada na ilustração estão com sangue nos olhos.

Lançado em junho de 2019, o segundo álbum foi batizado em referência à simbologia da ROMÃ, cujas sementes representam esperança e prosperidade em passagens da bíblia e de outros livros sagrados que contribuem para o sincrético misticismo do Oruã. Para preservar a dinâmica apresentada nos palcos, guitarra, baixo e bateria foram gravados ao vivo no Escritório, garantindo um resultado mais conciso, sem, no entanto, abdicar da habitual diversidade no tracklist. A faixa-título é um mantra que atravessa turbulências manifestas sob a forma de arranjos inquietos, denotando espiritualidade e insubmissão. Malquerências soa como o encontro de Black Sabbath e CAN num terreiro. No outro extremo, o hit Vitin foi facilmente assimilado pelos fãs de Pavement e viúvas do Kurt Cobain que não acompanharam a evolução da Transfusão nos últimos 7 anos.

Oruã e Disco Doom se conheceram numa turnê europeia encabeçada pelo Built to Spill. Para celebrar essa nova amizade e uma antiga admiração por Kiss, Guided by Voices e colagens sonoras, as duas bandas lançaram o split Esmeralda Destiny Analysis em julho de 2019, conectando dois mundos totalmente diferentes – Zurique e Errejota. Questionado sobre a parceria, o casal suíço Anita & Gabriele foi frio e calculista: “É muito fácil ficar fascinado com o Oruã. Uma voz inconfundível e um ritmo que nos levam para uma distorção do espaço/tempo.”


2019-2022

Ainda em 2019, durante breve passagem pelo Brasil, eles gravaram as bases do single Cavalo Branco e iniciaram uma nova fase marcada por colaborações à distância e gravações itinerantes viabilizadas por um notebook que substituiu o gravador de cassete. Zózio Kartas tocou bateria e percussão, um amigo russo apavorou no sax e o metalúrgico Felipe Gaax tocou trompetes que maisparecem trombetas, conferindo um adequado clima de prenúncio à canção que anunciava mais um álbum. Alguns takes foram adicionados nos EUA, aproveitando intervalos das gravações do novo disco do Built to Spill, previsto para setembro de 2022 via Sub Pop e que contou com o apoio de Lê Almeida e João Casaes na produção e mixagem.

Em 2020, impedidos de excursionar devido à pandemia, utilizaram suas reservas de dólares para finalizar o prometido terceiro álbum no Emerências, estúdio provisório que funcionou por meses numa casa alugada de costas pro mar de Búzios – cidade cujas ondas têm trazidos bons ventos à gangue da baixada. Mais gingado e político, experimentando com samples, synths e duas baterias, ÍNGREME, lançado em outubro de 2021, é o registro fonográfico da já encerrada formação de cinco integrantes deste conjunto que evita o termo banda. Não perca a conta: este é o 109º lançamento da Transfusão, que completa 20 anos em 2024.


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Playlist/coletânea do Oruã: spoti.fi/2IWaQUm
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Texto por Eduardo Bento. O autor é único responsável pelo conteúdo. Qualquer reprodução deve citar o DATABASE.FM como fonte. Primeira postagem em 21 de julho de 2018.