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ÚLTIMA ATUALIZAÇÃO: 21/06/2019. ENGLISH VERSION!
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“Oruã é filho do centro do Rio de Janeiro, nasceu à noite e frequenta os bailes pela madrugada. Free jazz de pobre. Kraut de vagabundo. Sem neurose.” Cru e sofisticado, de tonalidade ocre, o som do conjunto não se encaixa na paleta de cores artificiais de uma onda neo-psicodélica cada vez mais dependente de investimentos em pedais e efeitos. Com afrobeat, Clube da Esquina, alguns clássicos da Matador Records, riffs setentistas, amuletos, space cookies e um gravador de fita cassete na bagagem, o power trio embarcou numa viagem sem volta para fora da curva. Em junho, eles lançaram o segundo álbum, ROMÃ, e partiram para a terceira turnê internacional do ano, mais uma vez abrindo para o Built to Spill – que agora tem dois integrantes do Oruã em sua formação. Lê Almeida, Phill Fernandes e João Luiz estão com sangue nos olhos, mas mantêm a serenidade de quem nunca precisou de dinheiro para dar vazão à sua arte.

Recomendado para fãs de: Black Sabbath, BadBadNotGood, Milton Nascimento, CAN, Stereolab, JB de Carvalho, Ty Segall, Sun Ra, Pavement, Sonic Youth, Tortoise, Boogarins e Yo La Tengo.


Biografia

O conjunto Oruã emergiu no final de 2016, durante sessões de improviso no Escritório, sede da Transfusão Noise Records no centro do Rio de Janeiro. Com o apoio de mais de dez colaboradores, o trio liderado por Lê Almeida estreou com o disco SEM BENÇÃO / SEM CRENÇA, uma fritação repleta de recortes sonoros e mensagens cifradas, sempre com letras em português. O debute foi lançado em 2017 pela Transfusão e distribuído nos Estados Unidos em LP duplo pela IFB Records.

Em 2018, o conjunto tocou em todas as regiões do Brasil, passou por capitais e improváveis cidades do interior, cruzando estradas até chegar ao Uruguai. Nessa época, o power trio definiu a formação atual, com Lê Almeida na guitarra e vocal, João Luiz no baixo e Phill Fernandes assumiu as baquetas. Em shows esporádicos, o conjunto incorpora percussão, uma segunda bateria e backing vocals. Entre uma viagem e outra, eles foram gravando novas canções quando retornavam ao Escritório e ao longo do ano lançaram split com a goldenloki, cover do CAN, split com o marianaa em homenagem ao Charlie Brown Jr. e dois singles que entrariam no segundo disco.

2019 começou com a participação de Laura Lavieri numa releitura de Vou Recomeçar, clássico consagrado na voz de Gal Costa. Em abril, o EP Tudo Posso resgatou um pouco o caráter colaborativo de outrora, com dois saxofonistas que levaram as faixas para um caminho free jazz garageiro. A capa, silkada manualmente na versão em vinil, mostra algo óbvio para quem já teve a chance de presenciar os shows do Oruã: Lê, Phill, Joãzin e toda a crew representada na ilustração estão com sangue nos olhos.

Lançado em junho de 2019, ROMÃ se aproxima do que tem sido o Oruã nos palcos. Guitarra, baixo e bateria foram gravados ao vivo em fita cassete no Escritório. Mais conciso do que o antecessor, o disco tem dois extremos: a faixa-título, um mantra que atravessa uma turbulência sob a forma de arranjos inquietos, denotando espiritualidade e insubmissão, e Vitin, que vai de Nirvana a Pavement, funcionando como porta de entrada para quem parou no tempo e não acompanhou a evolução da Transfusão nos últimos cinco anos.

O nome romã veio depois que Lê Almeida pesquisou sobre a fruta e se identificou com sua simbologia. De importância milenar em diferentes culturas e religiões, as sementes da romã se tornaram símbolo de amor, fecundidade, prosperidade e esperança de que os próximos ciclos serão melhores do que os anteriores. A fruta é citada na bíblia e em outros livros sagrados que contribuem para o sincrético misticismo em torno do conjunto.

Interessado em atingir um público alheio a modismos e mais comprometido afetivamente com a experiência de ouvir um álbum, o Oruã tem se esquivado de rótulos. Quando estão no exterior, eles visitam lojas para distribuir os LPs e inevitavelmente são questionados sobre o tipo de som. Para não perder tempo teorizando sobre a mágica de suas gravações, a resposta é sempre a mesma: música experimental brasileira.


TURNÊS

2018 foi o ano em que o conjunto Oruã tocou em todas as regiões de Brasil, passando por importantes palcos e festivas das capitais, como CCSP e Bananada, e também em improváveis cidades do interior, criando uma rota peculiar – de fato, fora do eixo. Com dois integrantes tocando no Buil to Spill, o Oruã tem sido a banda de abertura da turnê dos 20 anos do álbum Keep it Like a Secret. Em março, eles fizeram uma breve turnê pelo noroeste dos Estados Unidos, com destaque para a participação no festival Treefort, em Boise, e para a gravação de uma session na KEXP em Seattle. De maio a junho, tocaram em 15 países da Europa numa empreitada de 27 datas em apenas 30 dias. Dia 21 de junho, iniciou-se mais uma turnê americana, com 33 datas até o final de julho. A agenda de shows está disponível em database.fm/tour/orua.pdf


Links

Fotos de divulgação: google drive
Transfusão: instagram / facebookbandcamp
Escritório: instagram / facebook
Playlist/coletânea do Oruã: spoti.fi/2IWaQUm
Playlist/coletânea da Transfusão: spoti.fi/2KsieKk


Posts relacionados

A página database.fm/transfusao reúne textos relacionado aos universo do Oruã. Confira alguns recortes:

Trempes, Imender

Trempes é o projeto solo de João Luiz, baixista do Oruã – e guitarrista nos shows do Built to Spill. Com o devido lobby, o debute Impender (Transfusão, 2018) poderia alçar o jovem de 20 anos ao status de “promessa” da “nova música brasileira”, o que mostra o quanto certos rótulos estão mais ligados a círculos sociais do que a questões estéticas. Recomendado para fãs de Helvetia, Homeshake, Ty Segall, Beck e Rodrigo Amarante.

Oruara, Ascendente

Oruara é um desdobramento do conjunto Oruã. As canções do disco de estreia contam com diversos colaboradores e trilham caminhos experimentais que levaram a uma parceria com o selo carioca Quintavant. Talvez a principal inovação seja a ausência de distorção nas guitarras – mais uma demonstração da recente guinada estética no som da Transfusão. (…) Assim como o debute do Oruã, Ascendente é envolto por certo misticismo e mensagens teleguiadas que buscam superar um revés na vida pessoal de Lê Almeida. Não perca a conta: Ascendente é o 100º lançamento da Tranfusão Noise Records, que completa 15 anos em 2019.

Oruã, Vitin

A maioria das resenhas tem se limitado a falar sobre as influências de krautrock, free jazz e afrobeat que coincidentemente também são citadas no press release do trio liderado por Lê Almeida. É aí que entra em campo a humildade do database para frisar o óbvio e assim preencher uma lacuna: ao mesmo tempo em que contempla longas viagens aparentemente inspiradas pelas improvisações do selo Sonic Youth Recordings, o repertório do Oruã é repleto de portas de entrada para um público mais abrangente, como viúvas do Kurt Cobain e tiozões fãs de rock setentista, The Doors, Black Sabbath e afins. Entre os momentos mais herméticos, Anátema é o fio da meada que liga Tortoise a Milton Nascimento. Entre as faixas mais pop, o single Vitin (Transfusão, 2018) vai de Nirvana a Pavement.


Texto por Eduardo Bento. O autor é único responsável pelo conteúdo. Qualquer reprodução deve citar o DATABASE.FM como fonte. Primeira postagem em 21 de julho de 2018.