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Violência anárquica: G.I.S.M. e a consolidação do hardcore japonês

POSTADO EM 28/10/2020
Por Vinícius Damazio

Chora, cavaco: Randy Uchida empilhando licks em menor harmônica para o terror dos punk faquinha

A estreia do G.I.S.M. em doze polegadas, DETESTation, foi lançada há quase 40 anos e até hoje gera discussão no underground, inclusive porradaria virtual. Por mais que a quantidade cavalar de relançamentos japoneses nos últimos anos mostrem que o som da banda, uma mistura apocalíptica de d-beat, metal e punk elevada ao máximo da crueza, não era tão exclusivo como se imaginava nos anos 80, não há como diminuir o pioneirismo e a superioridade do grupo sobre seus contemporâneos.

O desenrolar dessa cena tem como catalisador um crime que inaugurou, emocionalmente, uma década de tensão entre gerações e a escalada progressiva da violência entre jovens.

Em 29 de novembro de 1980, um assassinato na província de Kanagawa, ao sul de Tóquio, reverberou por todo o país. Um adolescente, suburbano em todos os sentidos, espancou seus pais até a morte com um taco de beisebol de alumínio. A mídia, os vizinhos e o próprio moleque não sabiam explicar a motivação por trás de tamanha barbaridade.

O assassinato abriu os olhos da sociedade japonesa para os índices crescentes de delinquência e alienação juvenil. Bōsōzokus (暴走族) e tsupparis (つっぱり), as gangues de garotos e garotas problema, ganharam o noticiário dos jornais, viraram temas de novela e presença constante nos mangás da época (para entender um pouco melhor desse caso e suas repercussões na cultura local, leia nossa entrevista com o autor Kato David Hopkins).

Foi nesse clima de provocação ao senso de autoridade enraizado na tradição cultural do Japão que a música independente local floresceu – do rock experimental ao psicodélico até o punk e o noise –, e de onde o próprio G.I.S.M. teve origem.

Em tendência alarmante, a violência escolar atingia um novo nível no último dia de aula, quando não havia mais chance de punição: a trocação de soco entre a molecada e o quebra-quebra do mobiliário se voltava contra os professores, que eram atacados por gangues de alunos com sede de vingança.

As escolas reagiram com uma política de tolerância zero, forçando regras arcanas e expulsões em série. Com a pressão colocada nos alunos, já desgastados por um sistema rigoroso de estudos, muitos simplesmente desistiam ou planejavam como se vingar.

O troco dado por Shigehisa “Sakevi” Yokoyama (vocais), Randy Uchida (guitarras) e Kannon “Cloudy” Masuo (baixo) foi um assalto sonoro informado tanto pelo o que havia de mais radical no punk até então, quanto pela sensibilidade da guitarra shred metaleira. O G.I.S.M. soava como um filho bastardo do G.B.H. com o Loudness.

Os primeiros shows do grupo foram, claro, no circuito estudantil. Para dar conta das baquetas, Sakevi pediu a ajuda da amiga Kaori Kōmura, que ainda era adolescente. “Quando conheci Sakevi, ele já era um estudante universitário, enquanto eu ainda estava no ensino médio. Um dia, em 1981, ele me pediu para ser a baterista no show de estreia do G.I.S.M., então ajudei até eles acharem um baterista de punk de verdade!”, ela explica.

Hoje conhecida pela sua trajetória no free jazz e improvisação livre, Kaori deu conta de dois shows: a estreia na Universidade de Tóquio e a sequência na Universidade Nihon. Clicando aqui você pode ter um gostinho de uma dessas apresentações. A gravação é lo-fi até o osso. Não diga que não avisei.

Delinquência juvenil: um G.I.S.M. embrionário ainda com Kaori Kōmura (primeira à esq.) na formação

Algumas participações em coletâneas e apresentações ao vivo depois, a formação já estava azeitada o bastante, com a chegada do baterista Tōru “Mario” Hiroshima, para registrar o debut DETESTation.

Musicalmente, o álbum toma uma abordagem maximalista da intersecção entre o hardcore caótico e o metal rápido. Inspirado pelos solos dramáticos de Randy Rhoads na banda de Ozzy Osbourne, Uchida oferece os poucos respiros de melodia em meio a todo o barulho que permeia o disco. Em “Document One”, a banda chega a pisar no freio para uma sequência de licks que não ficaria deslocada num disco de NWOBHM. Brabo demais.

Quem já ouviu, sabe: a gravação é tão espartana que chega a ser cômico os engenheiros de som terem sido creditados no encarte. Já as letras são um caso à parte (“Endless Blockades for the Pussyfooter” é o mais perto de poesia que o hardcore pode chegar).

A esse ponto, as performances violentas de Sakevi já eram notórias na cena local, incluindo o manejo de um lança-chamas caseiro e serra elétrica. Seguiam então humilhações verbais, ameaças de morte e ataques ao público. O slogan “Anarchy Violence” ganhava os telões com um assalto visual de cenas trágicas de guerra e vivissecções.

“Seigi no hero, Devilman!”: o personagem do mangá antiguerra de Go Nagai foi referenciado a exaustão por bandas da época

O design da capa de DETESTation ficou a cargo de Uchida e reproduz um pouco da estética visual dos shows, reunindo desde o Devilman trajando a camiseta “Destroy” de Vivienne Westwood, até recortes da Segunda Guerra Mundial.

O doze polegadas chegou na praça pelo selo Dogma Records, associado a revista Doll, que pouco a pouco virou a casa de todas as bandas que injetavam guitarras metálicas no hardcore.

O resultado disso tudo você já sabe, mas só pode ser explicado nos termos de uma típica resenha da finada Rock Brigade: os ventos soprados pelo disco assobiaram gelado nas cumieiras da mente da japonesada, num som maldito que Satanás não ensinaria nas escolas do inferno.

Endless blockades: a formação clássica que gravou DETESTation, em abril de 1983

As estreias em disco de colegas contemporâneos e a solidificação do circuito de turnês independente levaram à coroação do chamado “Hardcore Shiten’nō” de Tóquio (「ハードコア四天王」, algo como “os Quatro Reis Celestiais do Hardcore”), formado por G.I.S.M., Gauze, The Comes e The Execute.

Em Osaka, Laughin’ Nose, Zouo, Mobs e Outo ganhavam força. Já Masami, o lendário vocalista do Ghoul, famoso por ter perdido uma das mãos ainda adolescente enquanto brincava com dinamite, virou uma espécie de eminência parda da cena. E a ADK Records torna-se um celeiro do lado mais experimental do punk local.

Eventualmente, com a fundação de um selo exclusivo, apresentações com suporte audiovisual cada vez mais intenso, aparições no cinema e uma revista própria, os planos de Sakevi para a banda se tornariam quase tão multimídia quanto John Lydon originalmente concebeu para o P.I.L. Mas, isso é história para os próximo relançamentos… Por enquanto, dê o play:

 


As opiniões expressas nesse artigo são responsabilidade de seus autores e não expressam necessariamente a opinião do site. Trechos desse textos serviram de apoio e pesquisa para uma resenha publicada pelo Thiago Silva, vocalista da banda catarinense de hardcore Never Again. Todos os direitos de imagem pertencem à BEAST ARTS International. Para mais informações sobre o relançamento de DETESTation, acesse o Bandcamp do G.I.S.M.