Deep Noise DATABASE


Última atualização em 29/06/2017. Esta NÃO é uma página oficial da Deep Noise.

A Deep Noise é uma guitar band brasileira do início dos anos 90, de modo que você deve acentuar o I e prolongar o R para pronunciar guitar da maneira mais macarrônica possível. A banda nasceu na cidade mineira de Juiz de Fora, onde a cena shoegaze ainda reverberava, mas, seguindo a tendência da época, as influências inglesas foram cedendo espaço ao grunge. Por não ter ficado imune aos erros típicos dessa transição, a sonoridade da Deep Noise é um bom exemplo do termo guitar enquanto um legítimo subgênero do rock alternativo brasileiro da década de 90.

Lançadas num período em que JF estava conectada ao circuito independente, as demos Have Fun! (1992) e Turn The Silence Louder (1994) chegaram às pessoas certas e renderam shows ao lado de Superbug, Second Come, PELVs, Cigarettes, Brincando de Deus e afins. Numa dessas apresentações, no festival Super Demo, o jornal Estado de Minas tentou explicar qual era a estética dos juiz-foranos: “congrega em uma mesma estrutura Beatles, o som de Seattle (tipo Pavement e Superchunk [sic]) e o estilo das guitarras inglesas. Klaus (bateria), Vinicius Duailibi (baixo), Emerson Santos e Ciro Madd (guitarras) definem o que fazem como noise pop ou então os quatro de Liverpool com amplificadores ligados ao máximo”. Entre os citados acima, apenas Klaus não participou da primeira demo, que contou com Welerson Machado nas baquetas.

Totalizando oito músicas, as demos foram gravadas e mixadas num four-track por Paulo Beto, o PB, que na ocasião era metade do Silverblood e que, no final daquela década, ficaria mais conhecido pelo projeto anvil FX. Outro nome importante na trajetória da Deep Noise foi Alex Martoni, praticamente um quinto integrante da banda, que é creditado no encarte como “produtor executivo” – definição um tanto burocrática para alguém que opinava nas letras e nos arranjos, organizava eventos, distribuía as demos e até chegou a assumir o posto de baixista nos últimos shows. PB, Martoni e Ciro tocaram juntos na Stoned, banda que é considerado uma continuação da Deep Noise e que pretendemos abordar em futuras atualizações desta página.

Com os integrantes ingressando na faculdade e se mobilizando em outros projetos, a Deep Noise terminou na segunda metade dos anos 90. Em 1998, Ciro Madd já estava em São Paulo, onde iniciou uma carreira solo com forte influência dos anos 60. Em 1999, Martoni e Emerson se uniram a Rodrigo Lopes e Luiz Alberto para os ensaios de uma banda que nem chegou a ter nome, muito menos a lançar material. Sob efeito da ressaca grunge, o projeto mantinha um pé no shoegaze e agregava influências do post-rock que entrava em evidência com a ascensão do Sigur Rós. No começo dos anos 00, Luiz Alberto retornou para o Rio e fundou a grandprix enquanto Lopes e Martoni permaneceram em Juiz de Fora e criaram a duplodeck em 2001.

Talvez por não estar atrelado a nenhum selo, o nome da Deep Noise desapareceu nos anos 00 – nem mesmo no Google é possível encontrar informações biográficas, fotos ou ripagens caseiras das demos. Em 2013, quando a duplodeck entra em hiato, Mr. Lopes inicia um novo projeto que, num primeiro momento, tentou recriar músicas esquecidas da duplodeck e dos ensaios de 1999, incluindo Eclipse, uma faixa inacabada da Deep Noise. Nascia o Alles Club, cujo lançamento do primeiro EP, em 2016, e do single Eclipse, em 2017, foram um estímulo para que o material da Deep Noise finalmente começasse a ser digitalizado.

Em junho de 2017, no embalo do lançamento do single e do clipe de Eclipse, da Alles Club, o selo Pug Records upou no soundcloud uma versão de I Don’t Mind remixada a partir da master da fita demo Have Fun!, lançada pela Deep Noise há 25 anos. Após votação interna, o staff do database chegou ao veredito de que a faixa merece entrar para o top 5 do indie pop brasileiro, numa lista em que Lollypop, do Killing Chainsaw, e Lips 2, do Cigarretes, disputam a primeira posição. À altura do catálogo do midsummer madness e da Sarah Records, I Don’t Mind remete às demos do Pastels, às harmonias do Teenage Fanclub e ao único hit do Sea Urchins.

O database está reunindo informações relacionadas às guitar bands que passaram por Juiz de Fora no começo dos anos 90. Além de vídeos, zines e gravações relacionadas à Deep Noise, a empreitada inclui o resgate de fitas vhs com entrevistas e trechos de shows do Drivellers, Stellarblast, Second Come, entre outras bandas que se apresentaram na cidade.

Se você tem algum material relacionado a essa cena, envie um e-mail para contato@database.fm e, se possível, não divulgue os arquivos para que os mesmos possam ser disponibilizados com os devidos créditos. O encarte de Have Fun! estava desaparecido e, por intermédio do leitor Alex LC, foi gentilmente escaneado pelo Gilmar Monte (o Gimu, do Primitive Painters). O áudio de I Don’t Mind é provisório e deve ser substituído futuramente por uma versão remasterizada oficial.

Abaixo, estão listados alguns projetos relacionados direta ou indiretamente com os desdobramentos da Deep Noise e com a cena alternativa de Juiz de Fora dos anos 90. Conecte o fone de ouvido antes de iniciar a leitura!


ALLES CLUB

Em 2016, a Alles Club lançou 1999, EP de estreia com três faixas esboçadas nos ensaios realizados durante o último ano da década de 90. Por defender uma vertente mais à paisana do shoegaze, 1999 acabou ficando de fora do catálogo da Pug Recs, que preferiu lançar um maxi single com três variações de Eclipse. Ciro Madd canta na versão oficial já apresentada no EP, a baixista suíça Nina Hübscher sussurra vocais em português numa versão totalmente remixada e Alex Martoni canta num registro ao vivo. Essas três vozes para uma mesma canção ajudam a explicar a escolha do nome Alles Club, que significa “clube de todos” em alemão. Escute abaixo a versão “Pug Recs Mix”, cantada pela Nina e recomendada para fãs de Yo La Tengo, Sigur Rós e Slowdive.

Confira mais informações em www.database.fm/alles-club


ainda sobre o ALLES CLUB

No dia 22 de junho, a banda divulgou o clipe de Eclipse. No vídeo gravado na casa do casal Lopes e Nina, aparecem também Ruan Lustosa, guitarrista da Basement Tracks, e Fred Mendes, que, além de fundador da duplodeck, já tocou bateria na granprix e DJ6, gravou o EP Klouds da Top Surprise e tem feito shows com o hit-maker Filipe Alvim. Atualmente, a Alles Club está em processo de composição de seu primeiro álbum.

O vídeo foi produzido por Diego Navarro e Francisco Franco, do inhamis, estúdio que também fez os clipes de Home e Ready for the Haze, da Top Surprise, The Wall’s Drama, da Basement Tracks, Vida Sem Sentido, do Filipe Alvim, Nunca Nunca e Meus Argumentos, do Lê Almeida, entre outros. Sem tanto êxito, Francisco ataca de web designer nas horas vagas e é o culpado pelo layout do database.fm.


DUPLODECK

Os juiz-foranos fizeram o primeiro ensaio em 2001, quando compuseram I’m Sure, cujos riffs remetem a um embate entre Pavement e New Order. Nunca gravada oficialmente, a versão usada no clipe abaixo foi captada num ensaio e incluída como bônus no EP de estreia, gravado em 2004 mas lançado apenas em 2010. Outros destaques do EP ressuscitado pela Pug Recs são Nouvelle Vague, que rendeu comparações com o Stereolab, e Strange Girl, que vai agradar aos fãs de Pixies, Clap Yours Hands Say Yeah e Wedding Present. Em 2013, a duplodeck lançou o disco Verões e, após idas e vindas de integrantes, fez ensaios esporádicos e planeja continuar com sua formação original – Alex Martoni (vocal/guitarra), Rodrigo Lopes (guitarra), Fred Mendes (bateria) e Guilherme Lagartixa (baixo).


GRADNPRIX

Banda liderada por Luiz Alberto Moura, que cursou faculdade em Juiz de Fora nos anos 90, quando chegou a fazer ensaios com ex-integrantes da Deep Noise e futuros integrantes da duplodeck. De volta ao Rio, Luiz criou a grandprix, que, de acordo com a biografia da fan page, foi uma “banda de rock atuante no cenário indie carioca entre os anos de 2002 e 2009.” Em maio de 2017, fizeram um show em JF para celebrar seus 15 anos, mas não têm planos de volta à ativa. A sonoridade é uma improvável mistura de Teenage Fanclub com os ídolos gospel Catedral. Se você é assinante de conexão banda larga ilimitada, visite www.soundcloud.com/bandagrandprix por sua conta e risco. Além de participar do EP 1999, da Alles Club, Luiz esteve recentemente envolvido com a Ginger House.


SILVERBLOOD

Dupla juiz-forana formada no início dos anos 90 por Paulo Beto e Ana Romano, que depois migraram para São Paulo, onde lançaram seu único disco, Imperfection, pela gravadora Cri du Chat em 1995. Destoando da sonoridade industrial das demais faixas, a etérea Squeamish vai agradar aos fãs de Cocteau Twins e Sugarcubes.


PAULO BETO

Paulo Beto tem um currículo mais extenso do que a soma de todos os citados nesse post. Entre seus projetos de maior visibilidade estão o anvil FX e o ZEROUM, que atualmente está no formato dupla com Tatá Aeroplano, mas que já contou com um dream team que incluía Ciro Madd na guitarra. Ele tem sido assediado pelo database.fm para contribuir com informações para um PB Database – enquanto as partes não arrumam tempo para conversar via Skype, recomendamos este post.


CIRO MADD

A playlist abaixo resume a carreira solo de Ciro Madd. Sete faixas foram retiradas de Sleeping in The Rough Sea (Pug Recs, 2013), disco que remete a Minks, Teenage Fanclub, Beach House e Chris Cohen. Há também duas faixas que fizeram parte da Mutt Singles Series: Cold, influenciada pela carreira solo de Syd Barret, e You and Me, uma pequena sinfonia de teclados que poderia ser atribuída aos Zombies ou Beach Boys, se não fosse a insistência de Ciro em emular os riffs do Geoge Harrison a todo instante. Fechando o top 10, Amor Instantâneo é uma balada setentista com dedilhados cristalinos que fazem jus ao apelido “Alex Chilton do Belenzinho”.


BELLEATEC

A banda teve duas fases bem distintas. Com Paulo Beto e Tarcila Broder, o projeto sediado em Juiz de Fora lançou uma demo em 1998 e teve seu auge ao abrir um show do Atari Teenage Riot em Belo Horizonte. Em outra fase, Tarcila, Rodrigo Gorky (Bonde do Rolê) e um “produtor americano” faziam uma bossa nova que parece até abertura de novela do Manoel Carlos se comparada com a sonoridade da primeira formação. Sem jamais se encontrarem, os três integrantes faziam tudo por e-mail. Foi também por e-mail que o lendário radialista John Peel tomou conhecimento do EP Tetra Pak, de 2000, e selecionou duas faixas para tocar em seu programa na Radio 1, da BBC.

O tal “produtor americano” é Corey Cunninghan, guitarrista do Terry Malts – banda que promoveu o encontro definitivo entre Ramones e Black Tambourine no disco Making Time, um clássico instantâneo do noise pop lançado pela Slumberland em 2012. Ao lado de Matt Kallman (ex-integrante do Girls, atual tecladista do Real Estate e seu parceiro desde os tempos do Magic Bullets), Corey comandou a Body Double Ltd., subsidiária da Captured Tracks voltada para relançamentos, entre 2012 e 2013. O selo teve apenas quatro discos, entre os quais Dark Side, da one-man-band alemã Tom Diabo, merece destaque por ser uma das principais influências do Blank Dogs (banda de Mike Sniper, o boss da Captured Tracks).

Por coincidência, Corey voltou a trocar e-mails com alguns juiz-foranos e foi convidado para participar de uma série de 10 singles virtuais upados no soundcloud da Pug Records ao longo de 2014. Um pouco antes de assumir o nome Business Of Drama em sua carreira solo, ele encerrou a Mutt Singles Series com uma versão twee pop para Do They Owe Us a Living?, hino anarco-punk do CRASS.


BROTHER RAPP

Seria injusto não citar a Brother Rapp, uma vez que o hype em torno da banda, com Ciro Madd nos teclados, contribuiu para que artistas conterrâneos tivessem mais visibilidade e pegassem carona em seus shows. O Brother Rapp teve seus 15 minutos de fama quando a revista Bizz publicou uma declaração do produtor do produtor Jack Andino elogiando o crossover dos juiz-foranos: “O som é muito mais do que trash. São pesados, mas misturam coisas bem diferentes. Já existem muitos Sepulturas por aí”. Se você é fã do Mike Patton, escute a tape rastamuthafuckadeathtrashraggamuffin, de 1994.


BRAULIO ALMEIDA

Há mais de 20 anos no rolê, o produtor carioca Braulio Almeida só teve contato com Juiz de Fora em 2010, quando produziu o EP de estreia do Filipe Alvim. Desde então, ele tem sido requisitado para produzir diferentes artistas da cidade. Braulio mixou e masterizou as faixas da Alles Club, e deve gravar algumas baterias para o primeiro álbum da banda. Atualmente, está mixando o disco da Basement Tracks, que soltou um single no bandcamp onde consta a tag shoegaze – contrariando as diretrizes sugeridas pelo staff do database.fm para o uso deste termo.

Um de seus projetos é o Devilish Dear, cujo disco de estreia, These Sunny Days, de 2015, foi relançado esse ano pelo midsummer madness e, após ser incluído na lista de “bandas para ficar de olho” pela curadoria do bandcamp, teve uma boa recepção entre o público shoegazer. Revigorado, o trio iniciou as gravações de um novo álbum.


PUG RECORDS

Nascida na provinciana Juiz de Fora em 2010, a gravadora Pug Recs tem em seu cast boa parte das bandas citadas ao longo do texto, como duplodeck, Alles Club, Top Surprise, Ciro Madd e Filipe Alvim. Para evitar conclusões simplistas, vale frisar que o surgimento do selo não foi protagonizado e nem influenciado pelos personagens da cena guitar que movimentou a cidade nos anos 90. Existe, sim, uma afinidade estética entre essas duas gerações que, por conviverem numa cidade pequena, tendiam a se aproximar. A Pug foi um catalisador deste processo. Escute esta playlist que funciona como um best of do selo.


ATENÇÃO: Conforme mencionado anteriormente, esta não é uma página oficial da Deep Noise e nem uma página destinada exclusivamente à banda. A intenção é reunir informações relacionadas à cena independente de Juiz de Fora e, para tal, utilizamos os desdobramentos da Deep Noise como fio condutor da narrativa.

Texto e playlists por Eduardo Bento. Todos os direitos reservados. Reproduções totais ou parciais devem citar o DATABASE.FM como fonte.