Ciro Madd – Sleeping in the Rough Sea

A cabeça de Ciro Madd é habitada por ícones do rock sessentista, flashbacks de ensaios em corais infantis, ruídos de sua adolescência shoegaze e resquícios de bad trips. Ainda nos anos 90, Ciro mudou-se de Juiz de Fora para São Paulo, instalando seu portastudio no porão de um bairro italiano, onde, rodeado por pedais de distorção, gravadores analógicos e um piano do século XIX, ele tem registrado as melodias que passam por sua mente sob a forma de uma psicodelia acinzentada de rara sutileza. Reunindo algumas dessas faixas gravadas ao longo dos anos 00’s, Sleeping in the Rough Sea, debute de Ciro Madd, foi lançado pela Pug Records em novembro de 2012.

Abrindo o disco, Long Time, uma balada soturna conduzida por teclados, apresenta Ciro em seu instrumento original. Com produção aconchegante e melodias familiares, ele declara sua paixão pelos anos 60 na sussurrada See You e em The Color of Your Mind, onde harmonias vocais pincelam cores psicodélicas ao folk. Evoluindo do indie pop oitentista ao power pop da década seguinte, Candy Song e The Call revelam a admiração pelas guitar bands britânicas – o que se confirma nos ecos de dream pop da desorientante Experiment. Fechando o álbum, She’s Waiting For The Sunlight flerta com os primórdios rock progressivo, porém, assim como nas demais, mantendo o foco na melodia, cuja força independe dos diferentes contornos estéticos que possa vir a adquirir.

Quando foi lançado, Sleeping in the Rough dialogava com uma safra de bandas americanas influenciadas pela Creation, mas sua concepção é alheia aos passos dados pela Captured Tracks naquela época. Sem tantos reflexos do pós-punk, Ciro Madd viaja por conta própria aos anos 60, resgatando nomes obscuros e dinossauros antiquados. No entanto, a despretensão e genialidade do disco minimizam discussões sobre influências e conferem certo frescor ao que poderia soar nostálgico. Passados 50 minutos, suas 14 faixas desmistificam uma suposta barreira entre rock clássico e alternativo que ainda separa dois grupos igualmente inocentes: os que se apegam ao passado e os que celebram qualquer novidade.

Recomendado para fãs de Minks, Teenage Fanclub, Beach House, Tobin Sprout, Chris Cohen e George Harrison.


Essa resenha é uma adaptação do press release utilizado durante a divulgação do disco em 2012. As duas versões são de autoria de Eduardo Bento, do selo mineiro Pug Records.